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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES , 13.08.2017

Predigt zu Mateus 14:22-33, verfasst von Wilfried Buchweitz

Querida comunidade:

            O texto é conhecido. Imagino que todas e todos vocês já o tenham, ou lido ou ouvido anteriormente, possivelmente em mais de uma oportunidade. Já por isso se insinuam perguntas sobre como abordá-lo para que sua mensagem seja importante para nossa fé e vida hoje. Que aspecto novo o texto pode nos trazer? Que enfoque velho pode atingir uma nova área de minha fé e vida? Existem realidades novas em nosso mundo de hoje, diferentes do passado, que necessitam do confronto com este texto?

            Vou tentar entrar nele por um viés secundário. E quero chegar ao sentido principal mais adiante. Secundário quer dizer que está em segundo lugar. Mas não quer dizer que não seja importante. O secundário algumas vezes é muito importante. E neste caso o que chamo de secundário é muito importante, mesmo ao lado de algo mais importante.

            Convido para que prestemos atenção ao medo no texto. Há muito medo no texto. Um medo muito forte. Depois de viverem o milagre da multiplicação dos pães Jesus manda os discípulos voltar e para isso atravessar o lago Genezaré. Ele mesmo, Jesus, quer ficar sozinho para orar num monte próximo. Os discípulos embarcam. Já é tarde do dia e a noite vem. Levanta um vento forte que cria grandes ondas que sacodem fortemente o barco. Durante a noite Jesus se aproxima andando sobre o lago. O tamanho e a força das ondas e um vulto que enxergam sobre as águas desestruturam os discípulos. Ficam apavorados. O pavor toma conta. “É um fantasma”, gritam. Puro pavor, medo não controlado.

            Quando Jesus se identifica, Pedro, o Pedro que conhecemos de outras passagens dos evangelhos, corajoso, meio metido às vezes, quando vê Jesus, não perde a chance. Ele também quer andar sobre a água. Pedro é pescador, lidou com água o tempo todo e sabe que não se pode andar sobre a água. Nadar pode, mas andar sobre a água não pode. Mas Pedro quer andar sobre a água. Quando Jesus convida, Pedro pula do barco. Quando sente a força do vento, o medo se instala e ele começa a afundar. O “socorro, Senhor” é sua salvação.

            Nesta altura o pavor dos discípulos e o medo de Pedro são, ao menos humanamente, a verdade mais forte do texto. Muito forte. Pavor e medo são coisa muito séria. Os discípulos não apenas têm medo, mas eles são vencidos, derrotados pelo medo.

            O pavor destempera os olhos dos discípulos. O Jesus com quem eles convivem todos os dias vira fantasma. “É um fantasma”. Pedro de repente percebe e força do vento, a tal ponto que ele tira os olhos de Jesus. Assim ele perde a sustentação e começa a afundar. O medo faz Pedro tirar os olhos de Jesus e apenas prestar atenção ao vento. E Pedro, o grande Pedro, afunda como uma pedra. O pavor e o medo destemperam os ouvidos de pessoas. Elas ouvem um monte de coisas que ninguém disse. O pavor e o medo destemperam as palavras de pessoas, elas dizem coisas que numa situação normal não diriam. O pavor e o medo destemperam muitas outras coisas em nossa vida. Pavor e medo vencem pessoas. Desestruturam pessoas, algumas vezes por momentos, outras vezes a vida toda.

            Ter consciência do peso do pavor e do medo ajuda a entender o texto. E, cara comunidade, ter consciência do peso do pavor e do medo também é importante para a fé e vida através dos tempos, inclusive em nossos dias. Não é difícil identificar pavor e medo entre nós, hoje. Basta escutar algumas de nossas conversas, ouvir rádio, olhar TV, ler jornal, entrar em redes sociais. Pavor e medo de ser enganado, de ser roubado, de ser estuprada, de ser morto, de perder emprego, de não ter o que comer, de não poder confiar nas pessoas, de ser vítima de algum tipo de corrupção. O pavor e o medo afetam profundamente as pessoas e a sociedade de nossos dias, também de nossas comunidades. E não é sem razão. Também nós temos ondas batendo com força em nossos barcos, também em nosso barco igreja, e ventos soprando contra ela e contra pessoas. Algumas pessoas já não saem à noite. Motoristas andam sempre de janelas fechadas e trancadas. Contas em bancos estão sujeitas a serem saqueadas por estranhos. A produção dos agricultores é mal paga. Nas cidades câmeras focam e gravam todos os espaços nas ruas. A quantidade e a altura de grades e muros crescem. Uma pastora diz que sua comunidade cancelou todas as atividades à noite. Que no lugar onde a igreja está situada ninguém comparece de noite. Outra pastora diz que sua comunidade decidiu chavear os portões de acesso durante os cultos. Comunidades e casas no interior dos municípios já não estão seguras como estavam.

            “Socorro, Senhor”. Pedro consegue reagir a seu medo. Ele consegue tirar os olhos do vento e dirigi-los de volta a Jesus. O “socorro, senhor” salva a vida dele. Jesus lhe estende a mão. E Pedro é de novo um discípulo fiel. Jesus o critica Pedro: “Como é pequena a sua fé! Por que você duvidou?”. Como que dizendo: Pedro, você ouviu minha Palavra todos os dias, você presenciou curas de doentes, como é que você duvida de mim? Mas penso que a “pequena fé” de Pedro deu a ele forças para tirar os olhos do vento e redirecioná-los para Jesus. A pequena fé tornou o medo de Pedro criativo.

            Quando Jesus se identifica para os discípulos, eles veem que ele não tem nada de fantasma. Eles reconhecem o Jesus Cristo que os chamou e a quem decidiram seguir. E confessam: “De fato, o senhor é o Filho de Deus”.

            A identificação de Jesus muda a situação: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo”, e a mão estendida de Jesus a Pedro, mudam a realidade.

            E, mais um aspecto importante: Nossa leitura da Palavra de Deus e nossa experiência em fé e vida nos mostram que o medo não tem só o lado de atrapalhar as pessoas. O medo também pode ser criativo, enormemente criativo. Em fé, Pedro experimenta isso. Ele pede socorro. “Socorro, Senhor”. O medo pode embaciar os olhos, mas também pode abrir os olhos e fazer enxergar melhor. Pode ensurdecer os ouvidos, mas também abri-los para se ouvir mais e melhor. O medo pode me capacitar a enxergar perigos, prestar atenção a eles, avaliá-los e a lidar com eles adequadamente. O medo pode provocar pavor, mas pode também despertar sabedoria e coragem. Que bom que o medo me abriu os olhos. Que bom que o medo me fez ser mais cuidadoso. Que bom que o medo me mostrou a perigosa realidade e me fez optar por novos e diferentes caminhos.

            Quando o medo nos domina e escraviza, ele tem potencial para nos destruir. Quando conseguimos identificar o medo e suas causas podemos administrar isso e usar para nosso bem. Medo pode despertar para a vida. Em nossa realidade de nossos dias está muito claro que não conseguimos remover magicamente todas as causas e todos os causadores de nossos medos grandes e pequenos. Mas em vez de nos deixarmos dominar e escravizar por elas, podemos procurar jeitos de lidar com eles ativamente.

            E para nós, pessoas cristãs, o jeito de lidar com o lado desafiador do medo sempre tem a ver com o Jesus que diz aos discípulos “Coragem. Sou eu” e com o Jesus que “estendeu a mão, segurou Pedro”. Diz também para nós: “Coragem. Sou eu” e o tempo todo estende a mão para nós e para nos segurar. Nossos medos acompanhados por este Espírito de Jesus podem se tornar medos construtivos e ferramentas para a vida. O medo que me faz cuidar, prestar atenção, ser inteligente, ser ativo, criativo, abrir olhos e ouvidos e a boca, eu peço que o Espírito de Jesus Cristo esteja nele.

            Jesus Cristo é a Palavra viva de Deus. Onde esta Palavra viva de Deus for ouvida e vivida, acontecem espaços com vida. Sempre! Até o medo se torna instrumento de mais vida, nova vida, vida com esperança.

            E em nossas comunidades podemos nos ajudar uns aos outros e umas às outras. Não precisamos ficar sozinhos ou sozinhas. Não precisamos administrar sozinhos ou sozinhas nossos medos. Sempre temos irmãs e irmãos na fé e no amor conosco. Compartilhar medos ajuda a ver um quadro muito maior e isso ajuda a lidar melhor com eles. Pedir ajuda em comunidade fortalece esperança e confiança. Confessar a fé juntos faz nos carregarmos mutuamente. Gritar “socorro, Senhor” em comunidade é confortante. Constatar em conjunto “de fato, o Senhor é o Filho de Deus” faz a comunidade colocar Jesus Cristo acima de todos os medos, na sua qualidade de “o caminho, a verdade e a vida”.

            Tenhamos liberdade para gritar “socorro, Senhor”, como pessoas e como comunidades. E tenhamos fé para confessar, por exemplo, através das palavras do credo apostólico, “de fato, o senhor é o Filho de Deus”, como pessoas e comunidades. Isso vai dar as condições para abrir espaços para nossa fé e vida.



Pastor Wilfried Buchweitz
Porto Alegre
E-Mail: wbuchweitz@gmail.com

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